Peixes migratórios

Mestre em Ciências Biológicas (UFF, 2016)
Graduada em Biologia (UNIRIO, 2014)

Percorrendo longas (ou curtas) distâncias ao redor do globo, os peixes migratórios são movidos por um importante propósito: garantir a sobrevivência e continuidade de suas populações.

Na natureza é possível observar diferentes padrões de migração exibidos pelos animais: no ambiente terrestre, pode-se citar os lemingues, que formam grandes grupos migratórios, enquanto no ar, as aves representam a classe animal migratória dominante, deslocando-se por longas distâncias para escapar de condições ambientais severas, se reproduzir e procurar novas fontes de alimentação. No ambiente aquático, os peixes sobressaem como um dos mais importantes grupos migratórios, ao lado de grandes mamíferos como baleias e golfinhos.

Diversas espécies de peixe são conhecidas por seu comportamento migratório, dentre as quais destaca-se o salmão. Estes animais chegam a migrar por até 5500 km entre suas zonas de alimentação (nos oceanos) e desova (na cabeceira de rios e lagos), movimentos que ocorrem entre as costas leste e oeste dos oceanos Atlântico e Pacífico. Quando iniciam sua jornada em ambientes dulcícolas, estes peixes interrompem sua alimentação, utilizando-se apenas das reservas energéticas para enfrentar as correntes ribeirinhas rumo à nascente dos rios, onde depositam seus ovos. Em alguns casos, o desgaste por causa de tais migrações é tão grande, que algumas espécies como o salmão do Pacífico, perecem logo após a desova.

As distâncias percorridas pelos peixes migratórios podem variar: espécies como o salmão, a truta e o dourado, são caracterizadas como migradores de longa distância (acima de 100 km), enquanto lambaris, tabaranas e grande parte das espécies tropicais de água doce, percorrem distâncias mais curtas (até 100 km) para realizar a desova. Além disso, as migrações realizadas pelos peixes podem ser sazonais, anuais ou até mesmo diárias (verticalmente na coluna d’água). Embora grandes distâncias não sejam o principal obstáculo deste último tipo de deslocamento, espécies que migram verticalmente enfrentam mudanças de densidade na camada d’água, incluindo a presença de termoclina.

Por que os peixes migram?

Em geral, os peixes migram com fins reprodutivos, alimentares ou para escapar de condições ambientais severas e predadores. Em relação aos deslocamentos reprodutivos, pode-se citar a Piracema (em tupi, subida do rio), processo que apresenta grande significado biológico para os peixes. É durante esta migração que as gônadas sexuais (testículos e ovários) se desenvolvem e a maturação dos gametas ocorre, através da influência de dois fatores: a disposição genética e parâmetros abióticos como luminosidade, temperatura, hidrologia e qualidade d’água. Os estímulos ambientais são considerados, inclusive, importantes gatilhos dos processos de vitelogênese (incorporação de vitelo nos óvulos femininos) e ovulação das espécies.

Em relação à alimentação e fuga de predadores, cientistas observaram migrações diárias de algumas espécies de peixe, como forma de potencializar a partição de nicho em um mesmo ambiente, visto que diferentes espécies poderiam utilizar os mesmos recursos em períodos distintos do dia, além de utilizar a maior/menor incidência de luz como uma estratégia para evitar predadores. Desta forma, migrações alimentares não estariam relacionadas exclusivamente à escassez de alimentos.

Classificação dos peixes migratórios

A migração dos peixes é um fenômeno biologicamente complexo, para o qual foram adaptadas diferentes estratégias. Desta forma, com base no deslocamento realizado pelas espécies, estas podem ser classificadas em:

  • anádromas: quando permanecem em regiões marinhas pela maior parte de seu crescimento e desenvolvimento (período de recrutamento), retornando ao ambiente dulcícola para efetuar a desova (ex. salmão);
  • semi-anádromas (ex. Tenualosa toll): quando apresentam ciclo similar às espécies anádromas, porém não adentram rios para realizar a desova, que ocorre em regiões menos salinas de estuários (alto-estuário);
  • catádromas: quando habitam ecossistemas dulcícolas durante a maior parte de seu ciclo de vida, migrando para áreas oceânicas em época de desova (ex. Anguilla mossambica);
  • semi-catádromas: caracterizadas pelo crescimento e desenvolvimento (recrutamento) em água doce, e desova em áreas salinas de estuários (baixo-estuário; ex.: Lates calcarifer).

Os peixes migratórios também podem ser classificados como anfídromos, quando deslocam-se entre rios e oceanos, movimentando-se independentemente da temporada reprodutiva (ex.: Sardinella melanura); pomatódromos, quando seus movimentos encontram-se restritos à água doce (ex.: Tilápia); e, por fim, oceanódromos, quando as migrações restringem-se ao ambiente marinho (ex.: Lutjanus colorado).

Histórico e ameaças

No Brasil, os primeiros registros científicos relacionados à migração de peixes foram realizados entre 1927-1929 por Rodolpho Von Ihering, no rio Mogi Guaçu. Neste mesmo rio, na década de 1950, novas marcações em grande escala foram efetuadas pelos ictiólogos Manuel Pereira de Godoy e Otto Schubart, em espécies como o curimbatá e o dourado, entre outras. De lá para cá, várias metodologias surgiram para registrar o fluxo migratório de peixes, entre as quais pode-se citar a radiotelemetria, sistema de rastreamento que transmite informações através de um radiotransmissor implantado no peixe.

As migrações consistem em eventos extremamente importantes e energeticamente custosos para os peixes, que, além de superar inúmeros obstáculos naturais, também precisam enfrentar desafios impostos pelo homem, dentre os quais destaca-se a fragmentação e a perda de hábitat resultante de alterações antrópicas no ambiente natural (ex.: barragens, construções, dragagens, plataformas de petróleo, etc). A instalação de barragens para criação de reservatórios em hidrelétricas representa um sério problema para a ictiofauna brasileira, levando o governo a adotar uma série de leis a fim de mitigar os efeitos desses empreendimentos sobre a biodiversidade. Entre estas, tornou-se obrigatória a implantação de sistemas de transposição nas barragens, ajudando a assegurar as migrações e, portanto, a continuidade das populações de peixes, que representam uma importante fonte alimentar e de renda para populações ribeirinhas (pesca artesanal).

Referências bibliográficas:

BioMania: Migrações Animais. http://biomania.com.br/artigo/migracoes-animais

Elliott, M.; Whitfield, A. K.; Potter, I. C.; Blaber, S. J.; Cyrus, D. P.; Nordlie, F. G.; Harrison, T. D. (2007). The guild approach to categorizing estuarine fish assemblages: a global review. Fish and Fisheries, 8(3), 241-268.

Scientific American Brasil: Piracema. Disponível em: http://www.umc.br/artigoscientificos/art-cient-0089.pdf

Vasconcellos, R. M.; Araújo, F. G.; De Sousa Santos, J. N.; De Araújo Silva, M. (2010). Short‐term dynamics in fish assemblage structure on a sheltered sandy beach in Guanabara Bay, Southeastern Brazil. Marine Ecology, 31(3), 506-519.

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