Relações interespecíficas harmônicas

Graduação em Ciências Biológicas (UNIFESP, 2016)

Publicado em 16/01/2019

A fim de aumentar o seu fitness, as chances de reprodução e também a sobrevivência, os organismos interagem entre si de diversas formas dentro do ecossistema. As relações ecológicas podem se dar entre indivíduos da mesma espécie (interações intraespecíficas), ou ainda entre indivíduos de espécies diferentes (interações interespecíficas), e podem ser classificadas como desarmônicas ou harmônicas. As interações harmônicas são interações positivas para os indivíduos envolvidos, apresentando vantagem ao aumentar seu fitness e até mesmo influenciando diretamente sua sobrevivência e reprodução. Quando acontece entre indivíduos de diferentes espécies são chamadas de relações interespecíficas harmônicas.

Mutualismo

Talvez a relação interespecífica harmônica mais conhecida seja o mutualismo, definido como a interação entre duas espécies diferentes que se beneficiam mutuamente. Apesar desta ser a definição difundida nos livros, atualmente cientistas têm estudado o mutualismo e o definindo como uma exploração mútua entre diferentes espécies. Existem dois tipos de mutualismo: o obrigatório, também chamado de simbiose, e o facultativo, ou protocooperação.

No mutualismo obrigatório a sobrevivência dos indivíduos depende da interação, uma vez que eles não poderiam sobreviver separados. O termo “simbiose” implica em uma interação física fechada, como é o caso dos líquens, uma associação entre algas e fungos necessária a sobrevivência de ambos. Nessa associação a parte fotobionte, constituída por algas verdes ou cianobactérias capazes de realizar fotossíntese, provê alimento para o micobionte, que em troca garante proteção e umidade necessárias para a sobrevivência da alga. O talo liquênico pode ser composto de diferentes espécies de fotobiontes e micobiontes, sendo comumente chamado de fungos liquenizados.

Líquen. Foto: Randimal / Shutterstock.com

O mutualismo facultativo, ou protocooperação, é uma interação positiva para as duas espécies envolvidas, mas não necessária para a sobrevivência das mesmas. É comum entre animais e plantas por exemplo, principalmente em polinizadores como insetos e beija-flores, que transportam pólen de uma planta para outra, facilitando a fecundação cruzada, e obtendo recurso alimentar como o néctar em troca. Outra interação entre animais e plantas se dá através dos dispersores de sementes. Ao ingerir frutos e sementes, mamíferos e aves obtém o recurso alimentar e dispersam pelo ambiente através das fezes. Nesses casos, as interações podem ser tão específicas que as sementes não são danificadas pelo trato digestivo do dispersor, e ainda necessitam desse processo para facilitar a germinação.

Beija-flor retirando pólen de uma flor. Foto: NowhereLand Photography / Shutterstock.com

Comensalismo

O comensalismo é a interação entre espécies diferentes de modo que uma parte é favorecida pela associação, obtendo recursos por exemplo, enquanto outra não tem benefício ou prejuízo em termos energéticos. Espécies comensais normalmente associam-se proximamente do hospedeiro em busca de restos de alimentos, ou recursos necessários a sobrevivência. É o caso das rêmoras que se utilizam da nadadeira dorsal para se agarrar ao corpo de tubarões e assim se beneficiarem de restos alimentares deixados pelos predadores de topo dos oceanos. O comensalismo também é observado entre urubus, abutres e hienas por exemplo, que buscam alimento nos restos deixados por outros animais.

Um caso específico de comensalismo é o inquilinismo, onde uma espécie busca abrigo, proteção e suporte na espécie hospedeira sem causar, no entanto, danos ou custos energéticos. Um exemplo de inquilinismo pode ser observado na associação entre bromélias ou orquídeas que buscam suporte em árvores de médio e grande porte, atingindo áreas com melhores condições de luminosidade, recurso essencial para fotossíntese. Quando o inquilinismo acontece entre espécies vegetais também pode ser chamado de epifitismo.

Bromélia. Foto: Ricardo de Paula Ferreira / Shutterstock.com

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Referências Bibliográficas

[1] Begon, M.; Townsend, C. R. & Harper, J. L. Ecology: from individuals to ecosystems. 4 ed. Reino Unido: Editora Blackwell Publishing Ltd, 759p., 2006.

[2] Lotufo, T. M. C. Interações ecológicas. Disponível em: http://www.io.usp.br/index.php/infraestrutura/museu-oceanografico/29-portugues/publicacoes/series-divulgacao/vida-e-biodiversidade/821-interacoes-ecologicas.