Terras raras é o nome dado a um grupo de 17 elementos químicos metálicos: os 15 lantanídeos, do lantânio (número atômico 57) ao lutécio (71), mais o escândio (21) e o ítrio (39). Esses elementos têm propriedades químicas muito parecidas e costumam aparecer juntos nos mesmos minerais. São indispensáveis para a fabricação de ímãs potentes, telas, lasers, catalisadores e uma série de equipamentos de alta tecnologia, de celulares a turbinas eólicas e mísseis.
Apesar do nome, a maioria deles não é rara na crosta terrestre. O cério, por exemplo, é mais abundante que o cobre. O problema é que raramente se concentram em depósitos ricos o bastante para a mineração, e separá-los uns dos outros é um processo longo, caro e potencialmente poluente. A palavra "terras" vem do vocabulário químico antigo, que chamava de terras os óxidos, substâncias que não se alteravam com o calor.

Peggy Greb (USDA) / Óxidos de terras raras. Fonte. Domínio público
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Descoberta
A história das terras raras começa em Ytterby, uma vila perto de Estocolmo, na Suécia. Em 1787, o tenente e químico amador Carl Axel Arrhenius encontrou ali um mineral escuro e pesado. Em 1794, o químico finlandês Johan Gadolin isolou dele um óxido desconhecido, que recebeu o nome de ítria. Ao longo do século XIX, os químicos perceberam que essa "terra" era, na verdade, uma mistura de vários elementos, e a separação de cada um levou mais de cem anos. Quatro deles homenageiam a vila: ítrio, itérbio, térbio e érbio. O gadolínio homenageia Gadolin.
Propriedades e classificação
Os lantanídeos têm a mesma configuração eletrônica nas camadas mais externas e vão preenchendo, ao longo da série, um subnível interno chamado 4f. Por isso, quimicamente, comportam-se de forma muito semelhante, quase sempre com carga +3. O escândio e o ítrio, embora estejam em outra posição na tabela periódica, têm comportamento parecido e ocorrem nos mesmos minérios.
É justamente esse subnível 4f, protegido pelas camadas mais externas, que dá às terras raras propriedades magnéticas e ópticas incomuns. É o que permite fabricar ímãs muito fortes e pequenos e materiais que emitem luz em cores bem definidas.
Os elementos costumam ser divididos em dois grupos. As terras raras leves, do lantânio ao európio ou ao gadolínio, conforme o critério, são mais abundantes. As terras raras pesadas, do térbio ao lutécio, mais o ítrio, são mais escassas e, em geral, mais caras.
Principais aplicações
| Elemento | Uso principal |
|---|---|
| Neodímio e praseodímio | Ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, usados em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos, fones de ouvido e alto-falantes |
| Disprósio e térbio | Adicionados aos ímãs para que mantenham o magnetismo em altas temperaturas |
| Európio, térbio e ítrio | Substâncias luminescentes de telas e lâmpadas fluorescentes |
| Lantânio | Lentes de câmeras, baterias de níquel-hidreto metálico e catalisadores do refino de petróleo |
| Cério | Polimento de vidros e catalisadores automotivos |
| Gadolínio | Contraste em exames de ressonância magnética |
| Érbio | Amplificadores de sinal em cabos de fibra óptica |
| Samário | Ímãs resistentes ao calor, usados em equipamentos militares e aeroespaciais |
Os ímãs de neodímio são o uso mais estratégico. Muito mais fortes que os ímãs comuns de ferrite, eles permitem construir motores elétricos menores e mais leves. Um carro elétrico típico usa alguns quilos desses materiais, e uma grande turbina eólica pode precisar de centenas de quilos.
Minérios e extração
Os principais minerais de terras raras são a bastnasita, a monazita e a xenotima. A monazita, encontrada em areias de praias e rios, inclusive no litoral do Espírito Santo e do Rio de Janeiro, contém tório, um elemento radioativo, o que complica seu aproveitamento. Há ainda as argilas iônicas, depósitos em que os elementos ficam presos de forma fraca à superfície de argilas formadas pela alteração de rochas graníticas. Elas são mais fáceis de processar e ricas em terras raras pesadas.
Depois da mineração, o concentrado passa por processos químicos, como a extração por solventes, que separam cada elemento em centenas de etapas sucessivas. Essa fase de separação e refino é a mais complexa e a que exige mais tecnologia e controle ambiental.
Mercado mundial e o domínio chinês
Até meados do século XX, boa parte das terras raras vinha da monazita de areias da Índia e do Brasil. Depois, os Estados Unidos lideraram a produção com a mina de Mountain Pass, na Califórnia. A partir dos anos 1990, a China passou a dominar o setor, combinando grandes jazidas, como a de Bayan Obo, na Mongólia Interior, custos baixos e regras ambientais menos rígidas.
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a produção mundial de minério foi de cerca de 390 mil toneladas em 2025, das quais 270 mil na China. O domínio é ainda maior no refino: de acordo com reportagem do g1 de 28 de outubro de 2026, o país concentrava cerca de 85% da separação e do refino mundiais em 2025.
Essa concentração transformou as terras raras em instrumento de pressão geopolítica. Em abril de 2025, em meio à guerra tarifária com os Estados Unidos, a China passou a exigir licenças para exportar sete terras raras pesadas e ímãs, o que chegou a interromper linhas de montagem de veículos em outros países. Em outubro, anunciou novas restrições, suspensas por um ano em novembro, após um acordo comercial entre os dois países. Desde então, Estados Unidos, Europa e Japão buscam novas fontes de abastecimento.
Terras raras no Brasil
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, mas responde por uma parcela pequena da produção. O principal projeto em operação é o da mineradora Serra Verde, em Minaçu, no norte de Goiás, que explora um depósito de argilas iônicas e exporta um concentrado de terras raras. Segundo o g1, uma agência do governo americano firmou com a empresa um acordo de financiamento de US$ 565 milhões. Há também projetos em fase de pesquisa e licenciamento em Minas Gerais, especialmente na região de Poços de Caldas, e na Bahia.
O desafio apontado por especialistas é ir além da extração. Como a etapa de maior valor é a separação dos elementos e a fabricação de ímãs, o debate no país gira em torno de atrair indústrias de refino e de componentes, em vez de apenas exportar o minério. O preço também varia bastante conforme o elemento e o grau de pureza: em 2025, o quilo do óxido de neodímio processado custou, em média, US$ 73, segundo o g1.
Referências
- G1. Terras raras: o que o Brasil tem a ganhar ou perder na disputa bilionária entre China e EUA? 28 out. 2026.
- G1. Brasil tem 2ª maior reserva de terras raras do mundo, mas só 1% da produção global. 11 jul. 2026.
- USGS. Mineral Commodity Summaries 2026: Rare Earths. 2026.
Texto originalmente publicado em https://www.infoescola.com/quimica/terras-raras/