Doenças da orelha

Mestre em Ciências Biológicas (Universidade de Aveiro-SP, 2013)
Graduada em Biologia (Universidade Santa Cecília-SP, 2003)

A perda da audição é a principal dificuldade que acomete o sistema auditivo humano. Pode acontecer em apenas uma das orelhas, sendo a surdez unilateral, ou nas duas, a surdez bilateral. A surdez pode ser parcial ou total, e sua causa pode ter diversas origens, desde a uma lesão, a uma exposição a ruídos intensos por período prolongado ou patologias.

Foto: AnnaVel / Shutterstock.com

Otites

As otites estão entre as doenças mais comuns que afetam a audição humana, principalmente no período de infância. A otite é um processo inflamatório do aparelho auditivo, por diversas origens: infecção por algum micro-organismo, alterações anatômicas, alergia, deficiência imunológica, entre outras. Os sintomas são: febre, irritabilidade, cefaleia, anorexia, vômitos e diarreia, otalgia, otorreia, prurido, zumbido, orelha entupida, surdez, etc. O tratamento pode ser realizado com antibióticos, dispositivo auxiliar de audição, cirurgia. Quando acontece na infância, a doença pode afetar o desenvolvimento cognitivo e de linguagem.

Tumores

Tumores que crescem no nervo vestibular (nervo que se origina na orelha interna e segue até o cérebro) podem afetar o sentido de equilíbrio, provocar zumbidos e tontura, problemas de visão e, em casos mais avançado, causar a paralisia nos músculos da face. Denominado de Schwannoma do nervo vestibular (também é conhecido como neuroma acústico ou neurinoma acústico) é um tumor benigno pouco comum, de crescimento lento, que tem origem na bainha de Schwann do VIII par craniano e que pode fazer compressão o nervo coclear. Na maioria dos casos ocorre na audição unilateral e nos casos bilaterais, está relacionado à Neurofibromatose (crescimento anormal de tecido nervoso pelo corpo). Sua causa ainda é incerta, contudo há associação a uma falha no gene NF-2 do cromossomo 22, responsável da produção da proteína schawannoniana que faz a regulação da divisão celular das células de Schwann4.

Doença de Ménière

É a síndrome idiopática de hidropisia endolinfática, caracterizada pela deterioração gradual do sistema vestibular periférico da orelha interna, pelo estiramento do espaço endolinfático, prejudicando o ducto coclear e o sáculo. Ainda é incerto se a causa é pela elevada produção da endolinfa ou do bloqueio de sua absorção ou do seu fluxo. Os sintomas são: zumbidos, vertigem, tontura, comprometimento no equilíbrio, náusea, vômito, desmaio e perda auditiva progressiva.

Síndrome de Usher

Caracterizada pela associação com a retinose pigmentar e surdez congênita, é uma condição médica de origem genética, com padrão de herança autossômica recessiva. Os genes USH1B e MYO7A localizados no cromossomo 11 estão associados à síndrome, o último sendo responsável por expressar a miosina VIIA que estão presentes nas células ciliadas auditivas, uma série de células epiteliais e das células fotorreceptoras visuais. É classificada em quatro tipos:

  • Tipo I: sistema vestibular comprometido e surdez total.
  • Tipo II: sistema vestibular comprometido e surdez parcial.
  • Tipo III: lesão no aparelho vestíbulo-cerebelo, causado comprometimento no equilíbrio e postura; surdez total; psicose.
  • Tipo IV: surdez total e deficiência intelectual.

Tinnitus

Conhecido como “soada nas orelhas”, o tinnius é uma manifestação otoneurológica do sistema auditivo – o zumbido, um sintoma que pode ser definido como uma sensação sonora interior, independente da fonte de som externa. Afeta a qualidade de vida da pessoa, uma vez que pode interferir no descanso, comunicação, sono, concentração, memória e raciocínio, pode causar irritação, ansiedade, insônia e depressão. Pode estar associado a uma perda auditiva, a maneira como afeta o sistema auditivo não é completamente explicada, comprometendo, assim, o seu tratamento. Sua causa por ter diversas origens: infecções auditivas, metabólicas, neurológicas, cardiovasculares, farmacológicas, odontológicas e psicológicas.

Otosclerose

A otosclerose é uma doença degenerativa da cápsula labiríntica, com aumento da formação do tecido ósseo, provocando um crescimento anormal dos ossos e afetando o estribo. Manifesta-se na maioria em casos bilaterais, de condição rara na população e frequente em adultos. É de origem genética e causa a perda auditiva progressiva.

Colesteatoma

São lesões revestidas por tecido epitelial da orelha média, de crescimento anormal, escamoso e pelo acúmulo de queratina. Sua origem pode ser congênita, na minoria dos casos, que ocorre provavelmente por migração epitelial, refluxo de debris amnióticos, metaplasia de mucosa ou da permanência de remanescentes embrionários, caracterizada pelo tumor esbranquiçado na membrana timpânica. Na maioria dos casos, a origem pode ser adquirida, formado pela retração da membrana timpânica por causa de uma disfunção tubária ou advindos da migração epitelial por causa da perfuração da membrana do tímpano. A doença pode causar a paralisia facial, provocar um tumor no osso temporal e perda auditiva.

Labirintite

A infecção da membrana das estruturas da orelha interna, espaço conhecido como o labirinto, é comumente chamada de labirintite. Está associada à otite média (infecção na orelha média) e caracterizada por vertigem, zumbido, nistagmo e perda auditiva. Doenças autoimunes (síndrome de Cogan, poliarterite nodosa, a granulomatose de Wegener e a policondrite recorrente) e micro-organismos podem causar a doença. A doença pode evoluir para a labirintite ossificante, devido ao estágio fibroso levar a uma calcificação do tecido membranoso. Os sintomas incluem a presença de tumores, fratura de osso temporal, otosclerose avançada e hemorragia na orelha interna; pode provocar a surdez.

Micro-organismos

As infecções virais podem prejudicar as estruturas da orelha média e interna, causando a surdez. Os principais são: paramixovírus (parotidite epidêmica), Episten-Barr (mononucleose), herpes simples, herpes-zoster, adenovírus, enterovírus, influenza, parainfluenza, vírus da imunodeficiência humana adquirida (HIV), vírus das arboviroses (encefalite equina do leste e do oeste, encefalite de São Luiz) e citomegalovírus (CMV). As meningites virais também podem causar a perda auditiva.

Infecções bactérias e fúngicas causadas por: Streptococcus pneumoniae, Neisseria meningitidis e Streptococcus, Haemophilus influenzae, Streptococcus pneumoniae e Mycoplasma pneumoniae podem causar perda auditiva.

Outras doenças que podem comprometer o sistema auditivo: infecção do sistema nervoso central por Brucella, a doença de Lyme (infecção pela bactéria Borrelia burgdorferi) e a perda da audição por sífilis (raro). De origem congênita: toxoplasmasmose, rubéola, sífilis, citomegalovírus e herpes (complexo TORSCH).

O acúmulo de cerume no canal auditivo, apesar de não ser uma patologia, pode prejudicar a acuidade auditiva, uma vez que pode entupir e, assim, comprometer a percepção dos sons captados no ambiente. Pode ocorrer uma alteração na produção da cera produzida pelas glândulas e prejudicar a eliminação da secreção.

O acompanhamento médico é fundamental para que o tratamento das doenças tenha um sucesso no processo de reverter a condição do indivíduo.

Referências:

BOAGLIO, M. et al. Doença de Ménière e vertigem postural. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 69, n. 1, p. 69-72, 2003.

CORONA, A. P. et al. Fatores de risco associados ao Schwannoma do nervo vestibular: revisão sistemática. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 75, n. 4, 2009.

DE MATTOS GARCIA, M.; GONZAGA, J. G. Avaliação por imagem das lesões cocleares adquiridas (não-traumáticas): ensaio iconográfico. Revista Imagem, 2006.

FERREIRA, P. E. A. et al. Tinnitus Handicap Inventory: adaptação cultural para o português brasileiro. Pró-Fono Revista de Atualização Científica, 2005.

LIARTH, J. C. S. et al. Síndrome de Usher: características clínicas. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 65, n. 4, p. 457-61, 2002.

PAULUCCI, B. P. Vestibulopatias periféricas. Disponível em: http://forl.org.br/Content/pdf/seminarios/seminario_47.pdf. Acesso em: 10/07/2018.

PEREIRA, M. B. R.; RAMOS, B. D. Otite média aguda e secretora. Jornal de Pediatria (Rio J), v. 74, n. supl 1, p. S21-S30, 1998.

PIATTO, V. B. et al. Genética molecular da deficiência auditiva não-sindrômica. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, v. 71, n. 2, 2005.

SANCHEZ, T. G. et al. Zumbido em pacientes com audiometria normal: caracterização clínica e repercussões. Brazilian Journal of Otorhinolaryngology, v. 71, n. 4, 2005.

TESTA, J. R. G. et al. Otosclerose: resultados de estapedotomias. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, 2002.

TESTA, J. R. G. et al. Colesteatoma causando paralisia facial. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, 2003.

VIEIRA, A. B. C.; MANCINI, P.; GONÇALVES, D. U. Doenças infecciosas e perda auditiva. Revista Médica de Minas Gerais, 2010.

AVISO LEGAL: As informações disponibilizadas nesta página devem apenas ser utilizadas para fins informacionais, não podendo, jamais, serem utilizadas em substituição a um diagnóstico médico por um profissional habilitado. Os autores deste site se eximem de qualquer responsabilidade legal advinda da má utilização das informações aqui publicadas.
Arquivado em: Audição, Doenças, Saúde